Da redação 10/01/2023
Nem todos de direita são Bolsonarista e sim antiPT.
Em tom negativo a velha e podre imprensa usa o termo “Bolsonarista” para todos os atos negativos como vandalismos e agressões, tentando desde sempre denegrir a imagem de pessoas de direita.
Já para os críticos, que usam o termo com mais frequência que simpatizantes, bolsonarista beira o insulto, em um mecanismo não tão diferente do observado no uso de palavras como petista ou comunista por eleitores de direita.
Depois de quase quatro anos de governo Bolsonaro, pode parecer estranho perguntar: mas, o que, afinal, significa ser bolsonarista?
A pergunta é importante porque este conceito está ligado a um dos fenômenos políticos mais importantes da história recente do Brasil e que ainda deve gerar repercussões por muitos e muitos anos: o bolsonarismo.
Para entender tudo isso, as primeiras perguntas a serem respondidas são: quem são e o que defendem os bolsonaristas? Depois, é preciso entender o que está na origem do caldeirão do pensamento bolsonarista. Ou seja, o que há de novo e quais são as ligações com movimentos históricos, a exemplo do fascismo (como defendem alguns) ou do conservadorismo.
Bolsonaristas
Então, vamos lá. O que é ser bolsonarista?
Bolsonaro foi eleito presidente com 58 milhões de votos em 2018. Mas, em uma eleição em que muitos dos eleitores que votaram no atual presidente no segundo turno haviam escolhido outros candidatos no primeiro, é difícil classificar todas essas 58 milhões de pessoas como bolsonaristas — assim como nem todos os 47 milhões que votaram no candidato Fernando Haddad (PT) são petistas.
De qualquer forma, em 2018, Bolsonaro atraiu um eleitorado bastante amplo. Em seu livro O Brasil Dobrou à Direita, o cientista político e especialista em eleições Jairo Nicolau aponta que Bolsonaro venceu Haddad em 2018 em todos os níveis de escolaridade, sendo a primeira vez que o PT perdeu entre eleitores de ensino fundamental e médio (40% do eleitorado total) desde a vitória de Lula em 2002.
“Essa foi a primeira eleição em que praticamente todos os moradores de prédios e os porteiros votaram no mesmo candidato”, Nicolau disse ter ouvido de um porteiro.
Isso não significa, no entanto, que todos que votaram em Bolsonaro concordavam necessariamente com todas as declarações e as bandeiras do candidato. Nicolau explica que parte dos eleitores disse em 2018, por exemplo, que o voto em Bolsonaro era muito mais algo contrário a um partido/candidato do que a favor de outro. Ou seja, o voto de alguns eleitores era muito mais antipetista do que bolsonarista, por assim dizer.
Mas, após quase quatro anos de governo Bolsonaro e a entrada de Lula na disputa eleitoral de 2022, a composição dos bolsonaristas se transformou.
Segundo pesquisa do instituto Datafolha de junho de 2022, Bolsonaro só liderava em quatro grupos de eleitores: aqueles com renda familiar acima de 5 salários mínimos, empresários, evangélicos e habitantes da região Centro Oeste. Lula liderava em todos os outros grupos de eleitores.
Por isso, definir exatamente qual a parcela de bolsonaristas na sociedade brasileira atualmente não é uma tarefa tão simples.
Para alguns especialistas, podem ser classificados como bolsonaristas todos os cerca de 30% dos eleitores (46 milhões de pessoas aptas a votar) que apoiam o governo do presidente Jair Bolsonaro e dizem — segundo pesquisas — que vão votar por sua reeleição em 2022.
Já outros acadêmicos defendem que bolsonaristas não seriam todos os apoiadores de Bolsonaro, mas somente a parte considerada mais combativa e radical, os “bolsonaristas raiz”, pegando emprestada a expressão do próprio Datafolha.
São aqueles eleitores e políticos que consideram o governo bom ou ótimo, que não abrem mão de votar no presidente e que dizem “acreditar sempre” nas declarações dele, segundo o instituto. Quase 15% do eleitorado formaria este grupo (cerca de 23 milhões de pessoas).
O que move os bolsonaristas?
Levando-se em conta qualquer uma dessas medidas, os bolsonaristas são uma parcela bastante relevante do eleitorado. Por isso, desde que Bolsonaro despontou como favorito nas pesquisas eleitorais em 2018 e durante todo seu mandato, acadêmicos têm se debruçado para entender o que pensam seus apoiadores.
Dentre as várias pesquisas produzidas neste período, dois estudos jogam luz sobre o tema. Segundo as pesquisas Quem são e no que acreditam os eleitores de Jair Bolsonaro (Fespsp), de 2018, e Bolsonarismo no Brasil (Iree/Uerj), de 2021, os sentimentos e valores que, de modo geral, são compartilhados pela maioria dos apoiadores do presidente incluem, entre outras coisas:
– sentimento de “abandono” pelos políticos tradicionais
– ódio ao PT relacionado às políticas de inclusão defendidas pelo partido (sejam de renda, racial, social, de gênero ou de orientação sexual)
– rejeição ao PT como resultado da corrupção revelada no mensalão e na Operação Lava Jato
– rejeição aos principais partidos políticos (também alvos da Lava Jato)
– esperança de que alguém que melhore a política
– medo de ser vítima de crimes
– defesa do uso de armas para auto-proteção
– temor de mudanças na estrutura da família tradicional e na liberdade religiosa
– mal-estar com as novas identidades de gênero e com educação sexual na escola
– liberalismo econômico (ou seja, atuação menor do Estado na atividade econômica)
– nostalgia da ditadura militar e defesa da participação de militares na política
– crítica constante ao Supremo Tribunal Federal e a veículos jornalísticos pela cobertura supostamente injusta do governo Bolsonaro
– anticomunismo (contra a chamada “doutrinação marxista” nas escolas, por exemplo)
– defesa da flexibilização das leis ambientais para facilitar o avanço do agronegócio
– postura crítica, ainda que sem embasamento, de recomendações científicas em temas que geram conflito com metas econômicas, como a pandemia e o aquecimento global
É importante lembrar, claro, que nem todos os apoiadores de Bolsonaro são movidos por todos estes valores, e eles podem aparecer em maior ou menor intensidade dependendo do grupo, classe social, religião ou gênero do eleitor. O bolsonarismo é um fenômeno complexo.
Podemos ter, por exemplo, uma eleitora evangélica hipotética que seja contrária ao armamento da população mas que, temerosa com o que enxerga como ameaças à família tradicional, escolha o bolsonarismo ainda que não concorde com o cardápio completo de ideias.
Ou o caso de um eleitor ultraliberal que é contrário a cotas e outras ações afirmativas, mas que discorda do conservadorismo religioso que freia mudanças, por exemplo, em regras de aborto.
Já para os pesquisadores Paulo Gracino Junior (Iuperj), Mayra Goulart (UFRJ) e Paula Frias (Uerj), uma emoção específica uniria a maior parte dos bolsonaristas: o ressentimento.
“No caso da direita, o ressentimento volta-se contra a classe política e setores da população por ela privilegiados através de esquemas de corrupção e de clientelismo”, afirmam os pesquisadores, que dizem que, no caso da esquerda, esse ressentimento se manifesta contra as elites econômicas, a concentração de renda, e símbolos da riqueza e do luxo.
Segundo o trio de estudiosos, esse ressentimento tem bastante força entre evangélicos porque nas últimas três décadas eles passaram de grupo humilhado cultural e socialmente, para uma camada social organizada e com forte representação cultural e política. Atualmente, dizem os pesquisadores, esse grupo se vê numa variação de um dos versículos bíblicos mais populares no meio evangélico pentecostal: “os humilhados serão exaltados”.
Os evangélicos conservadores foram e são fundamentais no bolsonarismo. Estima-se que hoje os evangélicos representem um terço do eleitorado brasileiro e que Bolsonaro tenha vencido em 2018 nos principais segmentos religiosos, com margem expressiva entre os evangélicos (quase 70%).
Mas a identificação desse público com o bolsonarismo não é automática: pesquisas de intenção de voto em 2022 têm apontado uma pequena dianteira, porém crescente, de Bolsonaro contra Lula entre os eleitores evangélicos.
Aliás, um dado curioso sobre eleitores de Bolsonaro e de Lula: eles não pensam de forma tão diferente assim sobre alguns dos principais temas do país, como descriminalização do aborto e do uso de drogas.
Segundo pesquisa Datafolha feita em dezembro de 2017, havia inclusive mais eleitores de Lula que defendiam a prisão de mulheres que fazem aborto (67%) e a proibição da maconha (69%) do que eleitores de Bolsonaro (52% e 66% respectivamente).




