SÃO PAULO – Uma investigação da Polícia Federal (PF) coloca sob os holofotes o desembarque de um voo internacional no Aeroporto Executivo São Paulo Catarina, em São Roque (SP). O caso envolve a entrada de bagagens no Brasil sem passar pela inspeção obrigatória de raio-X. O avião particular transportava o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e outros parlamentares.
Diante do foro privilegiado dos envolvidos, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, acionou a Procuradoria-Geral da República (PGR) para que se manifeste sobre o prosseguimento das apurações.
O Flagrante: 7 volumes e “gestos de banalidade”
A irregularidade ocorreu no dia 20 de abril de 2025, quando a aeronave retornava da ilha de São Martinho, no Caribe. Imagens do circuito de segurança analisadas pela PF revelam uma dinâmica suspeita por parte da tripulação e da fiscalização:
- 21:31 – O piloto José Jorge de Oliveira Júnior passa pelo ponto de controle com duas bagagens, que são submetidas ao raio-X.
- 21:40 – O piloto retorna ao local com cinco volumes a mais (incluindo sacolas, caixas, um edredom e mochilas).
- A Liberação – Desta vez, nenhuma das bagagens passa pela máquina. Segundo o relatório da PF, o piloto troca olhares com o auditor fiscal Marco Antônio Canella. Ao ser questionado pela operadora do raio-X, o auditor teria gesticulado com as mãos, expressando “banalidade e irrelevância”, permitindo a passagem livre dos itens.
“É possível constatar que o Auditor Fiscal da Receita Federal permite passar sete volumes sem a devida fiscalização”, aponta o relatório policial.
Passageiros de Peso e Conexão com “Bets”
A aeronave pertence ao empresário piauiense Fernando Oliveira Lima, conhecido como “Fernandin OIG”. Ele é uma figura central na recente CPI das Bets, sendo apontado como representante do “Fortune Tiger” (Jogo do Tigrinho) no Brasil — acusação que ele nega.
Além do dono da aeronave, a lista de passageiros incluía nomes da elite política brasileira:
- Hugo Motta (Republicanos-PB): Presidente da Câmara dos Deputados.
- Ciro Nogueira (PP-PI): Senador e ex-ministro da Casa Civil.
- Doutor Luizinho (PP-RJ): Deputado federal e ex-secretário de Saúde do RJ.
- Isnaldo Bulhões Jr. (MDB-AL): Líder do MDB na Câmara.
O que dizem os envolvidos
Em nota ao g1, o deputado Hugo Motta afirmou que cumpriu todos os protocolos da legislação aduaneira ao desembarcar e que aguarda a manifestação da PGR. O senador Ciro Nogueira e os deputados Doutor Luizinho e Isnaldo Bulhões foram procurados, mas não se manifestaram até o fechamento desta edição.
Próximos Passos Jurídicos
A Polícia Federal apura os crimes de prevaricação (por parte do servidor público) e facilitação de contrabando ou descaminho.
Agora, cabe à PGR decidir se:
- Abre um inquérito formal contra os parlamentares;
- Solicita novas diligências para identificar a quem pertenciam os volumes não inspecionados;
- Devolve o caso para a primeira instância, caso entenda que não há indícios de participação direta das autoridades com foro.
A PF ressalta que, embora as imagens confirmem a falta de fiscalização, ainda não é possível determinar o conteúdo das malas ou a propriedade específica dos volumes irregulares.



