WASHINGTON e DUBAI — Apenas uma semana após os Estados Unidos e o Irã assinarem um pacto para encerrar os combates na região, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) atacou um navio cargueiro com bandeira de Singapura nesta quinta-feira (25) no Estreito de Ormuz. O incidente, confirmado por altos funcionários do governo americano, representa o primeiro grande teste de estresse para o frágil acordo de 60 dias negociado pelo governo de Donald Trump para reabrir a vital rota marítima.
A embarcação atingida foi o Ever Lovely, de propriedade da Evergreen Marine Asia Pte Ltd. O navio estava retido no Golfo Pérsico há mais de 100 dias devido aos conflitos e havia zarpado do porto de Umm Qasr, no Iraque, rumo a Singapura.
O Ataque: Ação deliberada com drone
Segundo fontes militares dos EUA, o ataque foi cirúrgico e deliberado. Um drone de ataque unilateral executou uma manobra de aproximação pelo lado oeste antes de colidir diretamente contra o cargueiro.
De acordo com a agência britânica U.K. Maritime Trade Operations (UKMTO):
- O impacto causou danos severos à ponte de comando do navio.
- Não houve registro de vítimas entre a tripulação.
O incidente ocorreu na costa de Omã, poucas horas depois de a marinha paramilitar iraniana emitir um alerta público ordenando que os navios mercantes não utilizassem rotas que não tivessem sido expressamente autorizadas por Teerã.
Rota da ONU é suspensa após o incidente
O ataque provocou uma reação imediata das Nações Unidas. Na última terça-feira, a Organização Marítima Internacional (OMI) havia anunciado uma rota de evacuação coordenada em conjunto com o Irã, Omã e os EUA para retirar centenas de navios mercantes que permaneciam bloqueados no Golfo Pérsico.
Horas após o bombardeio ao Ever Lovely, a OMI confirmou a suspensão por tempo indeterminado de toda a operação de resgate.
“A pausa é necessária para reconfirmar que as garantias de segurança continuam em vigor para os navios em nossa lista de evacuação e para todos na região”, declarou Arsenio Domínguez, secretário-geral da OMI, ressaltando que o navio atacado não operava sob o programa oficial do órgão no momento do incidente.
Relatos de tripulantes que navegavam em comboio próximo ao local indicam que o Ever Lovely e outras três embarcações seguiam estritamente a rota humanitária desenhada pela OMI, margeando a costa de Omã. Não houve avisos prévios via rádio por parte das forças iranianas ordenando o recuo do grupo.
Acordo de Trump sob forte pressão
O ataque coloca em xeque a viabilidade do pacto bilateral recente. Pelo acordo de cessar-fogo temporário, o Irã se comprometeu a garantir a livre e segura circulação de navios comerciais pelo Estreito de Ormuz. Em contrapartida, os EUA suspenderam temporariamente o bloqueio naval aos portos iranianos e concederam, nesta semana, isenções de sanções econômicas que permitiram a Teerã voltar a vender petróleo bruto faturado em dólares americanos — algo inédito em décadas.
Apesar da escalada militar no estreito, a Casa Branca ainda não se manifestou oficialmente sobre o ocorrido ou sobre possíveis retaliações americanas.
O conflito de rotas e pedágios
Por meio da rede social X, a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico (PGSA) — órgão controlado por Teerã criado para taxar navios na região e alvo de sanções de Washington — eximiu-se de culpa e culpou os armadores.
“Qualquer passagem por rotas fora do quadro designado pela PGSA não será coberta por garantias de passagem segura. As consequências decorrentes da passagem por rotas não autorizadas serão de total responsabilidade do proprietário, operador e comandante da embarcação.”
Antes do ataque desta quinta-feira, o mercado de frete marítimo vinha dando sinais de rápida recuperação. Dados da empresa de inteligência naval Kpler mostraram que o tráfego por Ormuz havia saltado de uma média quase nula para mais de 70 navios na quarta-feira, sinalizando o retorno da confiança dos armadores globais — uma trégua que agora volta a ser ameaçada pela instabilidade geopolítica.



